segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Lamen Kazu

Essa é a história de uma refeição que inspira e transpira cultura. E ela começa no bairro da Liberdade, num sábado cinza, bastante gelado e meio chuvoso. O herói desse dia, em que tudo conspira para ser perdido debaixo de um cobertor, é japonês. Não, não é o Gabi.


E também não é esse barbeiro com quem cruzamos por lá.

Nosso herói é um prato que atende pelo nome de Lamen. Muito popular no Japão, é um macarrão mergulhado num caldo quente com diversos "apetrechos". Cada casa de lamen desenvolve o seu caldo e acessórios. Será que dá pra dizer que é o arroz com feijão deles? Alguém aí poderia nos ajudar? Bom, o fato é que na Liberdade, bairro típico oriental onde se passa a nossa história, há várias casas de lamen. E lá fomos nós enfrentar o mau tempo atrás de um bom caldo com macarrão.

Os guias nos indicaram o Lamen Kazu e o Aska. No segundo, a fila estava imensa. No primeiro, aturável. No Kazu, decidimos aguardar a meia hora indicada pelo garçom, um oriental pequenino e muito simpático. Esperando com a gente, várias famílias e casais japoneses. Todo mundo bastante habituado, já pegando o cardápio, fazendo pedidos... Sim, fazendo pedidos. O Kazu não tem área de bar pra você ficar petiscando enquanto aguarda, então o garçom que controla a lista de espera se prontifica a adiantar os pedidos. Genial, não?

Então fomos fuçar no cardápio. Tudo em japonês, que maravilha! Mas deve ter algum bom infografista trabalhando para o Kazu, porque o cardápio é ultra explicativo. Olha só essa foto cheia de detalhes com todas as explicações necessárias pruma boa escolha:


Você não se sentirá desamparado. Se sobrar alguma dúvida, o garçom que te recebe na porta pode ajudar. 

Depois de 30 ou 40 minutos de espera, conseguimos sentar. Como já havíamos feito o pedido lá fora, os pratos não demoraram nem 5 minutos pra chegar à mesa. Nossas lombrigas agradeceram a agilidade!

O lamen é incrivelmente bom. Uma festa de sabores e aromas, num casamento perfeito. O caldo, que é a base do prato, é extraído de ossos de suínos e frangos e aí misturado a um molho. Nós pedimos um misso (pasta de soja fermentada), mas poderiamos ter escolhido shoyu, por exemplo.

Esse é o Misso Negui, pedido por mim. Os apetrechos são: Menma (broto de bambu em conserva, fatias grossas, mas macias), Moyashi (broto de feijão), Nirá (folha de alho, uma ótima surpresa, de gosto bem marcante), Shiragá Negui (cebolinha nebuka fatiada bem fininha, de consistência meio áspera), Tyashu (uma fatia de carne de porco cozida), Nori (folha de alga) e Cebolinha.


Gabi foi de Misso Tyashu, um prato bem parecido, mas sem a Shiragá Negui, apenas com a cebolinha tradicional.


O lamen é um macarrão delicioso. Para quem está acostumados aos miojos, a idéia é mais ou menos a mesma, com a determinante diferença de que o miojo é industrializado e cópia de uma massa super leve e maçiça. O lamen harmoniza demais com o caldinho e os outros ingredientes do conjunto, não tem nada a ver com aquela cara de água suja (e boa, inegável) do miojo.

Para acompanhar, arriscamos uma porção de guioza. Digo arriscamos porque faz tempo que não comemos isso em rodízio, por conta da gordura e da falta de sabor. Pois é, mas no Lamen Kazu descobrimos que guioza pode sim ser bom - e muito bom. A massa deles é extremamente leve, parece cozida no vapor. Na foto só existem três sobreviventes, mas a porção chega à mesa com cinco unidades.


Aos fins de semana, o restaurante fecha às 15h. Meia hora antes o garçom parou de montar a lista lá fora. Lá dentro, já confortáveis depois de comer bem e sentindo estar na sala de casa, duas vezes vieram nos perguntar se queriamos mais alguma coisa da cozinha, que já estava se preparando para fechar.

Agora atenção para os preços, muitos camaradas! Os dois pratos gigantes, a porção e dois refrigerantes nos custaram R$ 66.

A disciplina e atenção japonesa no atendimento, a minúcia no preparo do prato e a descoberta de sabores que nunca havíamos provado antes fazem com que o Lamen Kazu entre para o hall dos restaurantes Hors Concours do nosso blog. Nota 10 seria pouco para essa experiência fantástica que vivemos no bairro da Liberdade. Não é toda hora que grandes restaurantes estão escondidos em casinhas pequenas e simples, sem grandes propagandas e divulgação. Os heróis, afinal, conseguem resgatar coisas simples da vida - como tornar um dia frio e chuvoso num dos dias mais marcantes das nossas experiências gastronômicas! 

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Killa Novo Andino

Diga lá três pratos da cozinha peruana.

Impossível. Só quem manja muito do assunto tem a resposta na ponta da língua. Como eu e a Mari fazemos parte dos analfabetos gastronômicos, tivemos uma grata surpresa no Killa Novo Andino.

O restaurante fica em Perdizes, numa esquina bem simpática na rua Tucuna com a rua Coronel Melo de Oliveira.

Assim que chegamos, um garçom muito educado nos ofereceu o cardápio e um couvert que logo de cara agradou e despertou curiosidade. Ele nos explicou que eram sementes de milho aquecidas - que, ao contrário da pipoca, estouravam pra dentro. A casca, mais dura, impede o milho de estourar pra fora.


O nome do milho, segundo o garçom (nosso ótimo consultor naquela noite), é chulpe, uma variedade para ser tostada. É um petisco bem interessante. Bem crocantes, as sementes têm um gosto que lembra muito o sabor da pipoca, mas é um pouquinho mais concentrado.

Começamos pedindo as bebidas. Eu pedi uma cerveja boliviana, a Paceña. Ela é bem leve, pouco encorpada, desce numa boa. Aprovada!


A Mari pediu um pisco sour, drink preparado com limão, pisco, clara de ovo, xarope de goma e gotas de angostura. Bem saboroso e fraquinho, muito bom! Diz a lenda que o pisco está para o Peru assim como a caipirinha está para o Brasil.


Depois disso, demos uma fuçada no cardápio. Há entradas bem interessantes e mais conhecidas (como diversas variações de ceviche) e algumas com influências japonesas (com fatias de peixe cru) - chamadas de tiraditos. Nós preferimos apostar no polvo crocante. Vieram três fatias do molusco, com cenoura e cebola refogadas e uma pitadinha de pimenta. Pequeno, mas bem gostoso - mais pela composição do prato e pelos temperos do que pelo preparo do polvo, que não parecia estar tão fresquinho.


E só então fomos aos pratos principais. Eu pedio o Oro: filé mignon, marinado em aji panca, servido com guisada de papa seca, cogumelos e bacon.


Vamos ao glossário. Aji panca é um tipo de pimenta vermelha escura típica do Peru. Confesso que não senti o que se pode chamar de picante, nem sequer um gostinho de pimenta. O que me chamou a atenção foi a guisada de papa seca - e aí voltamos ao glosário novamente.

O guisado é uma técnica de cozinhar carnes dentro duma panela tampada, deixando os ingredientes (muitas vezes pré-cozidos ou fritos) misturarem os seus sabores de um modo bem lento à carne.

A papa seca é um tipo de batata que passa por secagem a frio próximo à cordilheira dos Andes, onde a temperatura chega a abaixo de zero e a umidade é muito baixa. Ficou sensacional a combinação com a carne (que estava macia), principalmente porque a papa seca ficou com uma consistência bem viscosa, com um caldinho leve que ganhou o sabor de todo o conjunto. Eu pedi a carne bem passada, mas um terço dela estava ao ponto – tendendo para o mal passado.

A papa seca me pareceu uma raiz com um sabor que oscila entre a mandioca e a batata. É muito boa!

Já Maricota foi de Pescado Tacu Tacu: filé de peixe empanado em panko, servido com tacu tacu peruano de lentilhas e bananas salteadas.


O tacu tacu, se me lembro bem, é uma maneira de indicar um cozidão. No caso do Killa, é o arroz misturado à lentilhas. Essa mistura, disse a Maricota, é incrível porque vem ligeiramente frita. E ainda serve de cama para o peixe, que estava bastante macio e com tempero na medida certa. Ela só não viu muita diferença na farinha panko, que seria um pouco mais crocante do que a comum. As bananas casaram perfeitamente com os outros ingredientes. Uma combinação muito feliz, segundo a nossa anfitriã.

Por fim - e exageradamente -, pedimos um menu degustação de sobremesas peruanas. Olha só que apresentação legal:


São doces simples, sem grandes novidades, à base de leite condensado, doce de leite e algumas frutas (abacaxi e uma outra típica de que não lembramos o nome). Não é nada fora do comum. Nenhum doce é au concours, portanto se você é fã de sobremesas, não espere muita coisa.

No fim, a conta saiu em torno de R$ 70 por pessoa - isso porque quisemos experimentar de tudo um pouco. Não nos arrependemos de nada: a cozinha peruana é muito rica, com temperos e modos de preparo bem diferentes de tudo o que já provamos até hoje.

O Killa surpreendeu pelo capricho no atendimento aos clientes. Os garçons sabem dizer exatamente o que é cada prato e bebida, como é o modo de preparo e as razões de determinados sabores sobressaírem.

Não nos resta outra avaliação para uma nova experiência bem-sucedida, senão a boa e velha nota 10. Fica nossa dica para aqueles que, assim como nós, buscam na diversidade da culinária paulistana uma experiência que fique marcada pra toda a vida!

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Platibanda

Nunca fizemos um post sobre molhos ou temperos, mas esta descoberta vale um breve registro.

Há algum tempo, o Platibanda é um dos bares que mais frequentamos na Vila Madalena. Injustiça ele não ter sido citado por aqui até hoje!

Vamos à história: o Platibanda oferece uma pimenta artesanal sensacional. Eu, Gabriel, nunca fui fã de pimenta. Mas recentemente tenho me interessado mais pelo assunto.

Descobri que não curto quando ela é muito picante - naquele naipe que você precisa interromper a refeição pra tomar um ar. Nunca vi barato nisso, é tipo "teste seus limites" ou "como perder a fome em uma mordida".

Mas pimentas como a do Platibanda têm me ajudado a mudar de idéia. O que eu tenho mais buscado é uma pimenta saborosa: um pouco picante, mas bem temperada. A do bar é assim, olha só que bela apresentação:


Dessa vez, comemos com coxinha e uma porção de filé acebolado. Da próxima, certamente pediremos com outros petiscos.

Para acompanhar, Serra Malte ou Original.

Não vou falar muito do Platibanda porque é um tipo de bar que você tem que ir pra descobrir qual é a sua mesa preferida, qual é o canto que mais lhe agrada, qual prato que combina mais com seu perfil, qual garçom lhe dá a dica mais bacana.

Serviço seja dado: o bar fica na rua Mourato Coelho, 1365. Vá e prove a pimenta artesanal!