domingo, 8 de maio de 2011

Oryza

Chegamos ao Oryza depois de ler esse depoimento de JB, um dos caras mais ranzinzas que eu já li, mas um dos melhores blogueiros de restaurantes de São Paulo. Faz parte de uma classe de conhecedores - e não de aventureiros, como humildemente nos mostramos aqui no RestCouple.

Bateu vontade de ir lá depois que li que o carro-chefe do restaurante era o "arroz". Vai dizer: como dá pra ousar em cima de arroz? Que tipo de prato pode ser tão caprichado assim? Como um acompanhamento pode ser tornar prato principal? Que restaurante pode ser especialista em arroz, afinal?

O ambiente do lugar me deixou com a pulga atrás da orelha. O restaurante fica onde antes era o tradicional AK. O térreo do sobradinho parece um pouco apertado e é barulhento. As conversas ecoam abusivamente. O zum zum zum de três - apenas três - mesas ganha volume quando turbinado pelo som ambiente de um jazz lounge nada a ver com o clima do lugar. Achei um pouco inconveniente.

Ponto positivo é a parede, onde tem um grafite bem simples, com um traço bem bacana, assinado por Finok. Lá no alto, a palavra "arroz" está grafada em várias línguas - do alemão ao francês, do inglês aos ideogramas orientais. Oryza sativa, por sinal, é a palavra científica para arroz - e que deu origem ao nome do restaurante.

Fomos bem recebidos desde o começo. Garçom atencioso e esforçado. Mas via-se que era meio espalhafatoso, afobado. Sabe quando a pessoa não transpira calma? A prova veio a dois minutos de pagar a conta, quando ele foi colocar água no copo da Mari e jogou metade fora. Bom, mas novamente faltou elegância.

Falando na água, detalhe bacana: o lugar serve água à vontade e de graça. Ponto a ser melhorado: não é legal o garçom ficar te servindo o tempo inteiro. Interrompe a conversa e deixa sempre o coitado do garçom com uma preocupação a mais. Requinte desnecessário! A sugestão é deixar uma jarrinha em cada mesa, com cada cidadão se servindo quando faltar água no copo.

Os cardápios são bem minimalistas. Agora cardápio estilizado está na moda! Esse aqui criaram com base nas pranchetas de trabalho:


Aliás, o cardápio de vinhos é mais vasto que o de comida!

Na chegada, o garçom logo alertou que não tinha o couvert de pão de arroz e manteiga queimada. No lugar, era oferecido o suppli - bolinho de risoto, com queijo derretido dentro, e uma geleia de pimenta acompanhando. Saca só:


Aceitamos pela curiosidade - e estava muito gostoso, principalmente pela geleia. Mas depois descobrimos que pagamos quase R$ 12 para cada um comer... 2 bolinhos. Sacanagem ou não?

De entrada, ainda dividimos uma porçãozinha de arroz vermelho com camarão, hortelã, manjericão e molho vietnamita. Grata surpresa pela apresentação, pelo sabor marcante e fresco, e pela combinação perfeita de elementos!


Quem nos serviu foi o proprietário da casa em pessoa, que deve ter olhado na nossa cara, avaliado que éramos moleques e desistiu de trocar uma idéia. Que somos moleques é verdade, mas ele perdeu a grande chance de conquistar dois blogueiros chatos.

E então partimos pro ataque principal. Há 9 opções de pratos de arroz. São todos exóticos, e fica difícil de escolher!

Eu fui na opção "arroz de pato". Arroz sênia com coxa confitada, quatro fatias de linguiça portuguesa e foie gras ralado. Saca só:


Bem gostoso, com tempero na medida. O arroz sênia é um grão espanhol geralmente usado em paellas - então você já deve saber da delícia que estou falando. Mas tenho um adendo. Confesso que tenho o costume de fazer 'massarocas' em casa. Avalio bem o que vou comer e de repente junto tudo numa grande mistura de arroz, feijão, salada, tomate, carne desfiada ou em cubinhos, batata, shoyu e assim vai... é uma mania que me apetece. Pois bem, tirando o arroz delicioso e macio, meu prato lembrou-me das massarocas caseiras, já que não senti tanta diferença nos sabores dos ingredientes. Nada realçava - exceto as fatias de linguiça, claro. O foie gras ralado, coitado... nem deu sinal de existência, foi mero requinte pra falar que estava chique.

Maricota foi no "risoto negro de tinta de lula", com arroz vialone nano, umas 8 lulinhas em cima e um toque de limão sisciliano que deixa o conjunto num azedinho bem leve e saboroso. Uma delícia!


Esse tipo de arroz é um dos preferidos dos chefs para preparar um bom risoto. Li agora há pouco que é o mais indicado para harmonizar com frutos do mar - e no prato da Maricota deu certo! O prato ficou muito bem harmonizado, apesar de a tinta de lula não ser tão saborosa a ponto de nosso paladar infantil perceber um realce muito apurado. Só percebi que a boca da Maricota ficou preta!

Ah, a casa ainda oferece massas (que não estavam sendo servidas no dia em que fomos), peixes e carnes.

De sobremesa, atacamos panna cotta de sucrilhos com calda de nutela à parte. Olha só que show de bola:


Sobremesa impecável, incrivelmente leve e extremamente saborosa. Eu acabei tomando um café Fazenda Pessegueiro que não conhecia, mas é uma delícia! Bem cremoso, pouco amargo e leve... gostei bastante.

Com a conta chegando à mesa, vimos que a brincadeira deu R$ 160. Comemos super bem e fomos bem atendidos; a comida realmente é artesanal e diferente, mas não vale tudo isso. A casa precisa passar por uns ajustes pra começar a exigir essa grana da clientela.

A contar: o ambiente poderia ser menos barulhento, o atendimento menos afobado e definitivamente deveria haver mais opções de pratos de arroz. Se é o carro-chefe, por que não umas 15 opções de prato? Por que há tantas opções de vinho em relação à variedade de opções de arroz? Aliás, ultrapassar a barreira dos R$ 40 é facada, né? Nossos dois pratos custaram R$ 44 cada um, poxa. Tudo bem que você tem a opção de pedir uma versão reduzida do prato, mas ainda assim acho um exagero.

Por outro lado, saímos com a certeza de que é, sim, possível existir um restaurante especializado em arroz, com pratos diferentes, requintados e deliciosos. De que ainda há bom gosto na culinária - e que ousadia é sempre um ingrediente que nos agrada muito.

Ótima descoberta de um restaurante que tem tudo pra ir pra frente. Só vimos gente ao nosso lado elogiando a comida, que realmente surpreende pelo ineditismo. Nota 8 para o Oryza.

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